Talvez fosse apressar as coisas. Talvez fosse dar errado. Talvez não fossem se suportar depois de duas ou três semanas. Mas nada, até agora, estava saindo como o planejado. Aliás, nada até agora tinha sido planejado. E estava fantástico exatamente desse jeito. Melhor continuar com as surpresas.

E era aquela falta do colo tão ansiado. Era a chateação pelo ocorridp. Eram os barulhos tão altos, o tempo todo. Era a vontade de se enrolar, no escuro, e abraçar o travesseiro e não levantar por nada. Mas não tinha um travesseiro. Nem um canto escuro.

Frustração (s.f.) – Sensação de impotência diante das cretinisses da vida. Expectativa não lograda. ex.”Te ligar, cancelando o que eu mais queria fazer hoje, frustrou-me muito. Maldita chuva, que além de arruinar minhas roupas e livros, estragou minha noite de sexta feira.”

Certezas e cerejas e muito mais dúvidas.

Acordou com o habitual barulho de carros e uma claridade incompreensível praquela hora da manhã. Deu se conta que não era mais aquela hora da manhã. Pulou, vestiu-se na velocidade da luz e correu pra cozinha pra cortar um melão e preparar o chá de todo dia  (sabotava a academia pra dormir, mas o café da manhã jamais), com a certeza de que não sairia do trabalho antes das 21h e de três horas de bronca. Na afobação de quem respira fumaça e chuva 5 dias por semana, esqueceu-se de olhar pro lado. E nem notou que abotoara a camisa errado, e quase alcançava a porta com pés trocados nas sapatilhas diferentes. Não fosse ele aparecer segurando as paredes e a pressa, ele e a cara de quem precisava de pelo menos mais meio dia de cama, ela teria corrido até o metrô mais próximo e só se daria conta de que era sábado depois de uma baldeação e mais três estações. Olhou-o, sorrisos crescentes, largou a bolsa em qualquer lugar e jogou-se naquele abraço onde se sentia tão bem. Sem sapatilhas, enquanto ele tratava de desabotoar as casas trocadas.

Ah, mudanças. Que bom que o medo delas tinha ficado para tras. (repetia o mantra três mil vezes por segundo, para ver se se convencia)

E já era sua aquela cidade caótica e cinza. Faltaria ele, a uns bons quilômetros de distância, pra ajudar a instaurar a ordem e ensolarar os dias de chuva. Ao menos fins de semana continuariam a existir (e a distância nem era assim tão absurda).

E tinha aquela mania besta e tão sua de não conseguir dormir sem desejar boa noie pro mundo. Não interessava se o dia tinha sido o mais caótico dos dias, simplesmente precisava dizer tchau para conseguir apagar por algumas horinhas que fossem. “As melhores noites de sono eram precedidas por um boa noite sussurrado”, concluía, fingindo ignorar que era aquele colo o responsável pelas noites doces.

E o corpo destruido era um memento das melhores 24 horas da semana, que passaram num estalar de dedos. Sentiria falta dos abraços na hora de dormir.

Finais não existem. Mesmo o que acaba fica na memória, e pode ser revivido e revisitado. Mas a cada releitura do que foi, pequenas coisas mudam: a memória é, na verdade, uma re-construção dos fatos e, subjetiva e influenciável, é re-criada ao sabor dos sentimentos.

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